
É época de Copa do Mundo, e o que mais vemos são crianças, adolescentes e adultos mergulhando no universo do futebol. Jogos, camisas, seleções, estatísticas, jogadores favoritos e conversas sobre partidas passam a ocupar boa parte do dia.
O que não conversamos é que, para algumas pessoas com TEA, esse interesse pode se tornar ainda mais intenso. E é justamente nesse momento que muitos familiares começam a se perguntar se isso é apenas paixão pelo esporte ou um interesse restrito.
Apesar do que muitos esperam, a resposta nem sempre é simples, até porque interesses intensos fazem parte da experiência humana. Muitas pessoas dedicam horas do seu dia a hobbies, por exemplo. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: como podemos transformar esse interesse em uma oportunidade de desenvolvimento?
Nas intervenções baseadas em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), os interesses da pessoa são considerados elementos relevantes para a construção de estratégias de ensino. Sua utilização como estímulos motivadores pode potencializar os processos de aprendizagem, contribuir para o desenvolvimento da comunicação e da interação social, bem como favorecer a ampliação de repertórios comportamentais.
Porém, no TEA, alguns interesses podem apresentar características particulares, como:
- Grande intensidade de envolvimento;
- Busca constante pelo mesmo assunto;
- Dificuldade em falar sobre outros temas;
- Sofrimento quando o acesso ao interesse é interrompido;
- Redução do engajamento em outras atividades importantes.
Nesses casos, o interesse pode ser classificado como restrito. Entretanto, é importante destacar que o problema não está no interesse em si. O futebol não é um problema, mas precisamos entender se esse interesse está ampliando ou limitando as oportunidades de aprendizagem e participação da pessoa com TEA.
Durante muito tempo, os interesses intensos foram considerados comportamentos que deveriam ser reduzidos ou evitados. Contudo, evidências mais recentes indicam que essa perspectiva pode ser limitada, uma vez que tais interesses podem desempenhar funções importantes no desenvolvimento, na aprendizagem e na participação social.
Isso acontece porque a motivação é uma das variáveis mais importantes para a aprendizagem. Quando uma atividade envolve algo de que a pessoa com TEA gosta, ela tende a:
- Participar mais;
- Permanecer engajada por mais tempo;
- Demonstrar maior iniciativa;
- Aprender novas habilidades com mais facilidade.
Em vez de lutar contra o interesse, o profissional que atua com ABA aprende a utilizá-lo de forma estratégica. Neste sentido, o futebol oferece inúmeras possibilidades terapêuticas. Ele envolve regras, interação social, comunicação, tomada de decisão, flexibilidade e compartilhamento de experiências.
A partir dele, é possível aprender sobre países e culturas, geografia, história, matemática e estatísticas, leitura e escrita, organização de informações, dentre tantos outros repertórios.
O foco está em garantir que esse interesse seja uma fonte de desenvolvimento, e não uma barreira para novas experiências. Em intervenções baseadas em ABA, interesses especiais não precisam ser combatidos. Muitas vezes, aquilo que a pessoa mais ama também pode ser o caminho mais natural para a aprendizagem.
E talvez essa seja uma das maiores lições que a Copa do Mundo nos oferece: conexões verdadeiras costumam começar justamente pelos interesses que compartilhamos. O futebol pode ensinar muito mais do que parece.
Referência:
HERNANDEZ ZEN, Maria Eduarda. O uso do ensino naturalístico no trabalho de crianças com TEA. Revista Acadêmica Souza, n. 82, fev. 2025. Disponível em: https://souzaeadrevistaacademica.com.br/revista/82-fevereiro-2025/00-editorial-fevereiro-de-2025.pdf